II CONCURSO “ História do Meu Bairro, História Do Meu Município”. SECRETARIA DE CULTURA DO ESTADO DE SÃO PAULO
HISTÓRIA DO BAIRRO DA RIVIERA PAULISTA
A história do bairro da Riviera Paulista, em São Paulo, capital, confunde-se com a história do antigo município de Santo Amaro e da represa Guarapiranga.
O antigo município de Santo Amaro estendia-se ao sul do córrego da Traição, onde hoje é a avenida Bandeirantes, até o bairro de Parelheiros, no extremo sul do atual município de São Paulo, na fronteira com Itanhaém. Em 1935, com a anexação ao município de São Paulo, a área do antigo município foi subdividida nos subdistritos de Santo Amaro, Ibirapuera, Capela do Socorro e Parelheiros. O antigo município correspondia à área em que se localizam hoje os distritos de Santo Amaro, Campo Grande, Campo Belo, parte do Itaim Bibi, Cidade Ademar, Pedreira, Campo Limpo, Capão Redondo, Vila Andrade, Jardim Ângela, Jardim São Luis, Socorro, Cidade Dutra, Grajaú, Parelheiros e Marsilac.O bairro da Riviera Paulista está inserido no atual distrito do Jardim São Luís, e contém os loteamentos de Riviera, Praia Azul, e Copacabana.
Com a construção da represa Guarapiranga, em 1906, a região sul de Santo Amaro foi cortada em duas partes. O antigo rio Guarapiranga desaguava no Rio Pinheiros, que por sua vez era afluente do Tietê. As terras ao redor eram basicamente ocupadas por pequenos sítios e chácaras, com agricultura de pequeno porte e criação de animais domésticos. Eram terras cobertas de uma vegetação secundária, rasteira, com poucas árvores, como aroeiras, eucaliptos (plantados) e jerivás, estas últimas, palmeiras consideradas nativas.
Com a crescente demanda de energia elétrica em São Paulo, a empresa canadense Light & Power comprou as terras ao redor do rio Guarapiranga para construir a represa, cujas obras se iniciaram em 1901 e terminaram em 1906. Como se tratava de uma empresa privada, ela pretendia gastar o mínimo de recursos financeiros para auferir o máximo de lucros, e adquiriu apenas as terras de que precisava para encher de água, sem se preocupar com o entorno da represa, deixando nas mãos de empresas particulares a possível exploração dessas terras adjacentes, sem um planejamento prévio nem uma legislação. Como eram terras de baixo custo, o poder público poderia tê-las desapropriado. Perdeu uma grande oportunidade de ter em suas mãos o controle daquelas áreas, cujo uso conforme e planejado (por exemplo, com áreas de lazer, parques e reservas) teria evitado a atual ocupação desordenada e preservado a qualidade da água da represa e do meio ambiente (felizmente a Cantareira não teve esse mesmo triste destino da Guarapiranga, pois com a criação do parque da Cantareira pelo governo e a topografia acidentada, esse importante manancial da zona norte da cidade de São Paulo foi preservado).
Naquela época a represa, com sua água limpa, suas margens desabitadas, ainda cobertas de vegetação e bela topografia suave (na margem esquerda, pois a margem direita, onde atualmente é o bairro de Interlagos, é mais plana), e suas três ilhas enfileiradas (uma maior e duas pequenas), constituiu-se num forte atrativo para o lazer dos paulistanos nos finais de semana. Das suaves colinas da margem esquerda avistava-se quase todo o espelho d’água, entremeado pelo verde das ilhas e tendo ao fundo a margem oposta, mais plana e retilínea, com belas praias de areia branca (em grande parte trazida de Santos) para o deleite dos paulistanos que não podiam descer a serra nos finais de semana. Era um panorama maravilhoso, semelhante ao de muitos lagos europeus. O local de onde se tinha a melhor vista de todas era uma grande península defronte às ilhas, que avançava para dentro da represa. Essa situação geográfica privilegiada, de uma porção de terra cercada de água, relevo suavemente ondulado e apenas uma estreita faixa de terra como acesso, foi um dos fatores decisivos para a sua valorização e preservação. Seria o futuro bairro da Riviera Paulista.
Mesmo antes da construção da represa, a beleza da região cativou o então Ministro da Justiça Uladislau Herculano de Freitas, que comprou ali uma grande extensão de terras, no inicio do século XX.
Uladislau Herculano de Freitas nasceu em 25/11/1865 em Arroio Grande, Rio Grande do Sul. Foi para Olinda estudar na primeira Faculdade de Direito do Brasil. Depois veio a São Paulo, terminar os estudos na Faculdade de Direito de São Paulo, onde depois se tornou professor. Foi Deputado Estadual em 1892; Deputado Federal em 1894; Senador da República em 1896; Ministro da Justiça em 1913-14; e Ministro do Supremo Tribunal Federal em 1925.
Casado com Clotilde Glycério de Freitas, filha do General Glycério, tiveram dez filhos, a saber: Francisco Glycério de Freitas, Maria Joaquina de Freitas, Camilla de Freitas, Adelina de Freitas, Clotilde de Freitas, Herculano de Freitas Filho, Rogério de Freitas, Antonio José de Freitas, Rodolpho de Freitas e Júlia de Freitas.
Uladislau começou a comprar terras na região da Guarapiranga em 1901. A primeira escritura foi lavrada em 1902, e depois outras se seguiram, até chegarem à dimensão total da Fazenda Itupu, com seus 320 alqueires (um alqueire paulista corresponde a 24.200 metros quadrados). A porteira da entrada da fazenda localizava-se na bifurcação da estrada do Guavirutuba com a atual estrada da Riviera, onde nas proximidades existe atualmente um Pesc-Pague. A fazenda destinava-se à criação de cavalos e gado, e ao lazer da sua grande família, nos finais de semana. Para isso ele construiu, em 1924, uma belíssima sede, no ponto central da península, com uma vista esplendorosa sobre os campos em volta e a represa. A casa era bastante moderna para a época, feita com tijolos à vista, tinha amplas varandas que a circundavam, e uma torre com um mirante, de onde se avistava toda a represa. No recinto principal, o salão de visitas, belos afrescos pintados nas paredes mostravam cenas de caça a veados e pequenos mamíferos nas matas circundantes. Além de veados, as matas possuíam uma rica fauna de pequenos animais, como tatus, gambás, cotias, e muitas aves (andorinhas, pica-paus, joãos-de-barro, tico-ticos, maritacas, corujas, gaviões, etc), e também lagartos, cobras e aranhas de todo tipo. Alguns ainda estão ali até hoje, alegrando o meio ambiente do local.
Em 1924, o mesmo ano da construção da sede da fazenda, o então Diretor da Penitenciária do Estado de São Paulo, Uladislau Herculano de Freitas, inaugurou a penitenciária do Carandiru, em São Paulo, projetada pelo arquiteto Ramos de Azevedo. Na fachada principal dessa penitenciária havia uma mensagem redigida por Uladislau:
“AQUI O TRABALHO, A DISCIPLINA E A BONDADE RESGATAM A FALTA COMETIDA E RECONDUZEM O HOMEM À COMUNHÃO SOCIAL”.
Eram outros tempos…
Na ocasião ele ganhou de presente um belo sino de bronze com as suas iniciais, e mandou colocá-lo na pequena torre do mirante da sede da Fazenda Itupu.
Quando morreu, em 1926, Herculano de Freitas deixou para cada filho 32 alqueires de terra da fazenda. Seis de seus filhos herdaram terras na península da Riviera: Rodolpho de Freitas, Francisco Glycério de Freitas, Antonio José de Freitas, Herculano de Freitas Filho, Adelina de Freitas e Maria Joaquina de Freitas.
Em 1932 seu filho Francisco Glycério criou o loteamento da Riviera, na parte sul da bela península que depois passou a ter o mesmo nome, comercializado pela Empresa Brasileira de Terrenos, dos sócios Hollander e Fonseca, que também foram os construtores do Restaurante Riviera Palace. Os lotes eram pequenos, de no máximo 400 m2. O núcleo inicial de pequenas casas surgiu ao redor do referido restaurante, que se tornou um ponto de encontro da elite paulistana nos fins de semana. No elegantíssimo restaurante os garçons serviam os fregueses vestindo paletós brancos, gravatinha borboleta e luvas brancas. As senhoras, de vestidos compridos e enormes chapéus enfeitados de flores, reuniam-se debaixo dos grandes guarda-sóis para assistir a partida dos velejadores que disputavam as concorridas regatas.
Seguiram-se os loteamentos Copacabana, de Herculano de Freitas Filho e Adelina de Freitas, do outro lado da península, e Praia Azul de Maria Joaquina de Freitas e Antonio José de Freitas, este último vendido em 1942 ao senhor Oscar Müller Caravellas, que comprou também a casa da sede.
Ainda permaneceram nas terras de Herculano de Freitas (fora da península da Riviera)
Netos: Francisco Glycério de Freitas Filho , Luiz Glycério Gracie de Freitas (falecidos)
Bisnetos: Luiz Glycério Gracie de Freitas Filho, Maria Luiza Brant de Carvalho Freitas, Guilherme Glycério de Freitas, Raul Brant de Carvalho Freitas, Camilla Glycério de Freitas, Francisco José Brant de Carvalho Freitas, Marina Glycério de Freitas, Marcello Glycério de Freitas.
A partir da década de trinta foram surgindo alguns clubes, destinados principalmente aos esportes náuticos, como a vela e o esqui aquático. Dentre eles o Clube Náutico Paulista, que na década de 40 recebeu um projeto moderno realizado pelo escritório de Oscar Niemeyer; e também o Iate Clube Itaupu, antigo Iate Clube Italia, e mais recentemente, o Clube de Campo Itaú, destinado ao lazer dos funcionários do Banco Itaú.
A população que ocupou a região era bem heterogênea.
Junto ao Iate Clube Itaupu formou-se um núcleo de industriais italianos, de São Paulo, e nos loteamentos Praia Azul e Copacabana formou-se outro núcleo, de alemães. Estes eram principalmente do sul da Alemanha, e a região lembrava-lhes as montanhas e os lagos da Baviera. A grande quantidade de pinus eliotti encontrada nessa parte da península foi plantada por eles. No início as casas eram usadas apenas nos finais de semana, só moravam em caráter permanente alguns moradores do núcleo inicial, junto ao Restaurante Riviera, principalmente imigrantes alemães e outros, que chegaram durante a Segunda Guerra Mundial e depois. Junto às praias da represa moravam alguns pescadores profissionais, que pescavam bagres, traíras, e até mariscos, para vender no mercado em Santo Amaro.
O acesso era difícil. As estradas eram de terra, já a partir do largo do Socorro, na época das chuvas os Fordinhos Bigode encalhavam e precisavam de grossas correntes e braços fortes para saírem da lama. Havia uma única linha de ônibus até a Riviera, com veículos tipo jardineira, que faziam duas viagens por dia, de manhã e no final da tarde, saindo de trás da igreja matriz de Santo Amaro. Além disso havia uma lancha de passageiros, o “Duque de Caxias” que saía da barragem (apelidada carinhosamente de “Paredão” pela população local) no bairro do Socorro, passava pelo Parque Municipal da Guarapiranga e encerrava a viagem no Restaurante Riviera.
Em 1942 o industrial Oscar Müller Caravellas comprou parte do loteamento Praia Azul e criou uma fazenda modelo para os funcionários da sua fábrica. A seguir, transcrevemos alguns trechos do seu livro, chamado “História de uma Indústria” , publicado em 1949:
“Tendo em vista as considerações que aí ficam, já em 1937 entramos a procurar meios e modos de ir melhorando as condições de confôrto físico e moral do nosso corpo de operários. Ninguém ignora que entre o nosso meio operário, dado o fraco valor aquisitivo atual da moeda, impera uma perpétua angústia. Com exceção do arroz e do feijão, não se sabe bem o que ainda possa ser comprado, pois carne, leite, manteiga e legumes frescos ou verduras, são coisas que cada vez mais se distanciam das suas possibilidades financeiras, sobretudo tendo-se em vista que o aluguel da casa ou mesmo do quarto já absorve quase metade do ganho de todo um mês. Tivemos que voltar as nossas vistas também para êsse lado.
Santo Amaro metamorfoseou-se em região alpestre, oferecendo, com suas montanhas verdes, as suas águas azuis e as suas enseadas e praias caprichosas, um dos mais belos sítios de turismo do Brasil inteiro, senão de tôda a América do Sul. As terras, até então habitadas sómente por alguns míseros caboclos e servindo apenas à caça de pacas e veados entraram rápidamente a ser vendidas. Às margens dos lagos, já então servidas por boas estradas de automóveis, surgiram numerosas vilas de luxo e encantadoras casinhas de recreio. Com a instalação de alguns clubes náuticos em praias que foram recebendo nomes sugestivos, tais como Interlagos, Riviera, Praia Azul e Copacabana, as águas da imensa reprêsa cobriram-se de velinhas brancas que deram vida nova ao caprichoso e vasto panorama, aumentando-lhe o encanto. Sto. Amaro transfigurou-se.
Em dias de 1942 vieram oferecer-me, por venda, um grande lote daquelas terras situado na antiga e grande propriedade que pertenceu ao notável advogado e professor da Faculdade de Direito de S.Paulo, o Dr. Herculano de Freitas. O local, por mim escolhido, era certamente o mais belo e bem situado da região. Ainda lá estava, apesar de meio em ruínas, a vasta e pitoresca casa de fazenda que êle fizera construir para as suas férias. A proposta era certamente de tentar. Num instante, resolvi a compra.
Na oferta que me fizeram, tratava-se sobretudo de um belo sítio de recreio. Efetivamente, não deixei de logo promover a reconstrução da casa, ampliando-a e dotando-a de todos os requisitos de uma moderna e luxuosa habitação de campo. Mas o que principalmente me tentava eram 21 alqueires de terras aráveis, à borda do lago e servidos ainda por numerosas nascentes de água cristalina, tudo apenas a 30 quilômetros de S. Paulo. Adicionados êsses 21 alqueires a outras terras por mim adquiridas no outro lado do lago no lugar chamado Campo de Baixo, ficava eu com uma considerável propriedade agrícola de mais de 50 alqueires, nas melhores condições para atender a tôdas as necessidades de abastecimento de frutas, legumes, verduras e laticínios de todo o numeroso pessoal das Indústrias Caravellas. Pus mãos à obra. Derrubaram-se matas, araram-se e adubaram-se grandes extensões de terras e prepararam-se pastos excelentes. Construiu-se um grande estábulo e uma bela cocheira, tudo segundo os métodos mais recomendados e mais modernos. Plantou-se um bosque de castanheiras, um imenso bananal e seis mil mudas de uvas para mesa, além de uma extensa horta capaz de produzir verduras e legumes para tôda uma pequena população. Prepararam-se instalações para a pequena criação e distribuíu-se água encanada e luz e energia elétricas por tôdas as habitações da nova propriedade, sem esquecer naturalmente a grande casa de residência. Estava montada a granja modêlo – a Fazendinha Três Caravellas. Vieram então os animais: vacas leiteiras, cavalos de sela e de trabalho, porcos de raça, carneiros, cabras, perus, galinhas, patos e até coelhos.”
Até os anos 1960 a região permaneceu básicamente preservada, com campos de vegetação rasteira (capim gordura) para o gado que pastava livremente pelas colinas. As casas de final de semana foram chegando aos poucos, o acesso ainda era difícil e não havia infraestrutura de abastecimento de água nem luz elétrica. Cavavam-se poços, que nem sempre tinham água, e necessitava-se de bombas para puxar a água. A iluminação das casas era feita com lampiões de querosene. Todas essas dificuldades brecavam o progresso.
No início dos anos 70 iniciou-se o “boom” da construção civil e da instalação de indústrias em São Paulo, com a chegada da grande leva de imigrantes que constituiam a mão de obra necessária a esse desenvolvimento. Muitas dessas fábricas instalaram-se em Santo Amaro. Porém os operários não tinham onde morar. Foram ocupando clandestinamente as vastas terras ao redor da represa, públicas ou de particulares, ou comprando lotes pequenos a baixíssimo preço, numa área cuja infraestrutura era proibida por causa da Lei de Proteção aos Mananciais. Essa Lei Estadual, de número 898 de 29 de dezembro de 1975, pretendia conter a ocupação urbana restringindo o uso do solo, e proibindo a instalação de infraestrutra. Com isso o valor de mercado dos terrenos caiu muito, propiciando a criação de loteamentos populares (legalizados, e também clandestinos) e incentivando a ocupação ilegal de terras rejeitadas. Tudo isso facilitado pela falta absoluta de fiscalização dos agentes legais. O tiro saiu pela culatra. Uma lei que visava proteger o manancial, foi a causa da sua degradação. Sem saneamento básico, todo o esgoto e o lixo gerado por essas ocupações era despejado nos córregos que alimentavam a represa, comprometendo sériamente a qualidade da água utilizada para abastecer a população.
A península da Riviera Paulista conseguiu se salvar dessa onda de desmatamentos e ocupações irregulares. No dia 20 de dezembro de 1970 foi fundada a SARP, Sociedade Amigos da Riviera Paulista, por um grupo de moradores muito empenhado em lutar pela preservação daquele lugar tão privilegiado pela natureza. Naturalmente a situação geográfica do bairro ajudou muito, porém a garra, a união e a coragem desse grupo pioneiro foi decisiva no processo. Suas ações prioritárias foram, em primeiro lugar, a pressão para que o poder público fiscalizasse o cumprimento da lei, e a batalha pela implantação de uma categoria de zoneamento estritamente residencial, que limitasse as áreas de ocupação nos terrenos a 40% e impedisse a instalação do comércio e da indústria. Portanto, a partir daquela data, os lotes pequenos de 250 e 400 m2 deveriam ser reunidos para formar lotes grandes de no mínimo 1000 m2. .Com isso os espaços livres para os jardins foram preservados, e os terrenos se valorizaram.
Na década de 70 foi instalada a rede de energia elétrica e de telefonia, e na de 80 a rede de abastecimento de água. Até hoje não há rede coletora de esgotos no bairro, cada residência possui sua própria fosse séptica. As ruas são de terra (grande parte dos moradores não quer o asfalto, para que o bairro mantenha suas características campestres, e porque muitos também praticam a equitação nas suas ruas).
Um fato em que a SARP também teve um papel importante foi na invasão, por um grupo de ocupantes ilegais, de uma área da antiga fazenda Itupu, pertencente ao INSS, fora da península da Riviera, mas junto à entrada dela. Os moradores logo chamaram as autoridades, e enquanto estas não chegavam, enfrentaram os invasores armados de paus e enxadas, conseguindo expulsá-los. Atualmente aquela área, de 340 hectares, é o Parque Ecológico Guarapiranga, criado pelo Governo do Estado em 1995 e financiado pelo Banco Mundial, no âmbito do Programa de Saneamento Ambiental da Bacia Guarapiranga.
Nos anos 90 também, por iniciativa da SARP, foi implantada a coleta seletiva de lixo no bairro da Riviera, com a construção de dois postos de entrega voluntária na entrada do bairro. Os recursos obtidos com a venda do lixo reciclável servem para a compra de cestas básicas dos funcionários da associação, e para o Centro da Juventude ligado à paróquia, que já conseguiu montar uma biblioteca e um centro de informática para as crianças de baixa renda. Mais tarde foram criadas outras associações, como a ARC (Associação Riviera Cidadã) e a SOS Represa Guarapiranga, uma entidade ambientalista de atuação mais ampla, dirigida à preservação de toda a Bacia Guarapiranga.
A vegetação rasteira dos antigos pastos se desenvolveu, e hoje há uma mata exuberante no bairro, com muitas árvores grandes, como araucárias, eucaliptos, aroeiras, jerivás, e inclusive dois enormes jequitibás-rosa muito antigos, tombados pelo patrimônio histórico.
Para finalizar, seria interessante contarmos algumas curiosidades sobre esse bairro tão peculiar.
No final dos anos 30 um comerciante português mandou construir, numa das colinas mais elevadas da península, uma réplica em tamanho menor do Cristo Redentor do Rio de Janeiro.. Infelizmente ele foi demolido algumas décadas depois, e não há nenhum registro fotográfico dele.
Nos anos 40 um grupo de japoneses, moradores do bairro de Veleiros, em Interlagos (na margem oposta da represa) mandou construir um templo xintoísta numa das praias desertas da península da Riviera. Eles atravessavam a represa em barcos a remo nos finais de semana para realizar seus rituais em homenagem aos “kami”, os deuses que representam as forças da natureza. Dentro da água, em frente ao templo, havia um belo “torii” , um portal de madeira esculpida, pintada de vermelho, que permaneceu intacto até poucos anos atrás. O templo foi reformado e atualmente é uma residência.
Quando sua esposa adoeceu, o industrial Oscar Müller Caravellas prometeu construir em sua fazenda uma capela em homenagem a Santa Edwiges, caso ela se restabelecesse. Foi o que aconteceu, e a belíssima capelinha com vitrais coloridos é usada ainda hoje pela comunidade para missas e eventos especiais.
Ainda há no bairro: uma igreja moderna e um sanatório para doentes mentais, dirigido pelas Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração.
Atualmente moram na Riviera Paulista cerca de 270 famílias, e os novos moradores não param de chegar, o que pode prejudicar essa boa qualidade de vida, se não forem mantidas com rigidez as regras implantadas há décadas atrás.
Muitas famílias que vieram morar aqui há décadas permaneceram no bairro por mais de duas gerações, criando laços sociais e comunitários muito sólidos. O resgate da história dessa comunidade mostra como esses laços e a união em torno de um ideal comum podem transformar para melhor a qualidade de vida de vida de todos os moradores.
Referências:
Oscar Müller Caravellas, “História de uma Indústria” , livro publicado pelo autor em 1949.
Miria de Moraes, Thiago Luz Bronzoni, “Album de Santo Amaro”, texto de pesquisa da Biblioteca Presidente Kennedy.
Ivan Metran Whately, “Legislação e uso do solo na Bacia Guarapiranga”, publicações em apostila do SOS Represa Guarapiranga, 1992.
Felipe Reis e Inês Lohbauer, “História da Represa Guarapiranga”, exposição de painéis (no Clube “A Hebraica” , no Parque Ecológico Guarapiranga e em diversas escolas) além da publicação em apostila do SOS Represa Guarapiranga, 1996.
Internet: (Uladislau Herculano de Freitas)
www.justica.sp.gov.br
www.direito.usp.br
Informações complementares: (depoimentos)
Francisco Glycerio de Freitas (neto de Uladislau Herculano de Freitas)
Ingrid Wahnfried (moradora desde os anos sessenta, ex-presidente do SOS Represa Guarapiranga e atual conselheira da SARP)
Klaus Peter Igersheimer (velejador na represa, seu pai, alemão da Bavaria, foi um dos pioneiros, chegou ao bairro nos anos 40)
Ivan Whately (engenheiro e arquiteto, morador desde os anos sessenta, ex-presidente da SARP e co-fundador do SOS Represa Guarapiranga).
Ilustrações:
Sede da fazenda Caravellas, depois de reformada a partir da primeira sede original da Fazenda Itupu de Uladislau Herculano de Freitas.
Cópia xerox de um desenho a bico de pena que ilustra o livro “História de uma Indústria”, de Oscar Müller Caravellas.
Folheto de lançamento do loteamento da Riviera Paulista, em 1932.
Restaurante Riviera Palace, núcleo inicial do loteamento, em 1938. Ponto de encontro da elite paulistana. Cópia xerox de foto original de autor desconhecido.
Vista da represa para o Iate Clube Italia, depois Iate Clube Itaupu, em 1939. Cópia xerox de foto original de autor desconhecido.
Resumo biográfico da autora:
INÊS ANTONIA LOHBAUER
Nasceu em 18 de setembro de 1946, em São Paulo, capital. Formou-se em arquitetura na Universidade Mackenzie em 1970. Em 1992, com um grupo de amigos, fundou a ONG SOS Represa Guarapiranga, onde trabalhou como coordenadora de projetos até 2005. Paralelamente desenvolveu a atividade de tradutora de livros do alemão e do inglês, e de escritora, profissões que exerce até hoje.